quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Numa manhã...


Escutei-o conversando com a mãe. Queria sentar ao meu lado. Não, na verdade, queria sentar no meu lugar, para que a mãe ocupasse o outro assento e ele pudesse encostar a cabeça nela um pouquinho.
Mas eu estava lá. E, como não tinha jeito, ocupou o assento vago e deixou a mãe no outro banco.
Pouco me importei com a situação. Continuei com a leitura. Em poucos minutos, um muxoxo. Ignorei. Logo em seguida mais um, um pouco mais alto, mas ainda inteligível.
Na terceira vez, não resisti. “O quê?”. “Xhshsahs” (é a tradução mais fiel do que pude entender). “Hã?”, insisto. “Xhshsash”, repete. Eu desisto. Ele, não. Do nada, dispara:
- Você vai pra igreja?
- Não. E você?
- Eu vou.
Claro, não sabia o que responder. Entrei no jogo.
- Todo dia?
- Não, só aos domingos.
- Ah… que bom.
Ele muda de assunto. “Olha minhas figurinhas. Tenho um monte de álbuns: o da Copa, Hot Wheels, Cars…”, “Sério? Deixa eu ver” – falo, já pegando o bolo da mão dele.
-Tem bastante repetida. – Ele meio que se desculpa.
-Mas você não troca? – Arrisco.
-Não.
-Ah… por quê?
- Porque não. Meu álbum já tá completo.
- Todos?
- Não. Só do Hot Wheels. Olha, serve de figurinha e de tatuagem também. – ele arregaça a manga da blusa azul e me mostra o carrinho amarelo, já meio gasto, que tá “tatuado” no braço direito.
- Que bonito! Você tem quantos anos?
- Oito.
- Qual é o seu nome?
- Matheus.
- Legal, Matheus.
- Você estuda? – Mais uma guinada de assunto.
- Sim, tô indo “pra escola” agora. E você?
- Eu não, eu tô indo tirar minha carteira de identidade.
- Ah, é? Poxa, que legal! – Imaginei aquela carinha numa foto 3×4. Ele sorriria? Choraria? Acho que faria uma expressão de adulto, o perfeito “homenzinho”. Fofíssimo.
Somos interrompidos:  “Matheus, vamos. A gente desce no próximo”.
Já estava me acostumando com o papo. De repente, me vejo frustrada com a despedida precoce.
- Você que é a mãe do Matheus?
- Sou, sim.
- Parabéns.
- Obrigada.
Eu queria completar com um “seu filho é…”. Mas, o que falar daquela criaturinha de oito anos que puxa assunto com uma estranha pra perguntar se ela vai à igreja?
- Tchau, Matheus. Foi um prazer.
- Tchau.
Acho que algumas pessoas, sabe-se lá o motivo, precisam passar pela sua vida. Em menos de quinze minutos, o Matheus passou pela minha. E um pedacinho dele vai ficar aqui pra sempre.