- Não é, não. Logo, logo você pega o jeito. Espera pra ver.
Este diálogo (e suas variações) se repetiu seguidamente, durante cerca de quatro meses, há 15 anos. Na época, eu estava sendo alfabetizada e não entendia como a leitura poderia ser tão automática e natural para meus pais, enquanto que para mim... bem, lembrar a exata sonoridade das vogais já representava atitude de máximo esforço.
Com o tempo, fui pegando a manha. Acho que o fato de meus pais sempre terem me incentivado a ler acelerou consideravelmente o processo (em tempo. Mãe, pai: brigadão, viu?).
Eu cresci, me apaixonei por literatura e pela escrita, me formei em jornalismo. Então, numa dessas navegadas despretenciosas pela internet, eis que me deparo com esta matéria.
(Pra você que, assim como eu, eventualmente tem uma puta preguiça de clicar no link: te encaminha para um texto de O Globo sobre alunos copistas, uma espécie de "variante" dos analfabetos funcionais. Enquanto os primeiros têm dificuldade para compreender o que leram/escreveram, estes últimos só são capazes de copiar as letras, desenhado-as conforme veem na lousa.)
Esta reportagem calou fundo. Se já era difícil conviver com a realidade de que a maioria dos cidadãos têm dificuldade para realizar uma simples interpretação de texto, estar diante dessa nova lacuna na educação básica (a que, a propósito, todo brasileiro tem direito), repugna.
Novamente sou levada a refletir sobre os vários Brasis que coexistem num único território. Infelizmente, a nação que se orgulha por ser a sétima economia mundial, a futura sede dos Jogos Olímpicos e da Copa do Mundo, a grande promessa dentre os países emergentes, a "bola da vez"... é a mesma que lega ao seu povo a mordaça do analfabetismo.
Estamos falando de jovens de 13, 14 anos, que só sabem desenhar seus nomes caso tenham de onde "colar" a forma dos traços. E, ainda que o tenha feito com maestria (como é o caso de muitos dos estudantes entrevistados na matéria), não saberá dar ao termo seu devido sentido. A que tipo de perspectiva um indivíduo como este pode se entregar?
Para mim, a integração é a chave para muitos dos problemas sociais que nos atingem. Muito se questiona sobre os aeroportos, os estádios, a inflação, as estratégias de sedução dos partidos políticos para as classes emergentes. Discussões muito legítimas. Mas que ocorrem à revelia daqueles que sequer sabem interpretar o significado de seus traços.
O aluno copista é herança da política de progressão continuada, sistema, surgido nos anos 60, que eliminou a repetência dos alunos nas escolas públicas independentemente do conhecimento adquirido, sob a justificativa (devidamente embasada por pesquisas) de que um aluno tende a ganhar mais quando o processo de aprendizagem é contínuo. Na prática, a medida representou um sistema de aprovação descriterioso e coletivo.
Unificar um país deveria ser o objetivo, a prioridade e a motivação de todos. Mas não por meio de medidas paliativas e de consequências subestimadas. Como crianças, preferimos fechar os olhos, fantasiar as belas promessas sussurradas ao ouvido, ao invés de lermos e interpretarmos, por nós mesmos, a história que de fato estava escrita.
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